O medo e ansiedade no cérebro

Quais são as alterações causadas pelo medo e ansiedade no cérebro humano? Para responder a esta pergunta, o BrainSpace do Rio2C 2019 reuniu, no dia 25 de abril, Ronald Fisher, Diretor do Laboratório de Evolução da Mente, Corpo e Cultura da Victoria University Wellington, e Sidarta Ribeiro, Vice-Diretor do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Ronald Fisher, que estuda as origens da prossocialidade, tem uma pesquisa sobre a dinâmica cognitiva e emocional dos rituais. “Por mais que tenhamos uma cultura, somos macacos que saíram da selva. E temos vários rituais ligados ao controle dos medos. Por exemplo, a religião ajuda a reduzir o medo do desconhecido. Então rituais servem para diminuir a ansiedade e ajudar as pessoas a viverem uma vida melhor. Minha abordagem na pesquisa de rituais é em focar no comportamento e também perguntar e entender o sistema de crenças em cima do comportamento”, explicou. 

Sidarta Ribeiro defendeu que o medo e a ansiedade são coisas vinculadas. Segundo o especialista, o medo está ligado a ameaças e é uma emoção primitiva que atravessa o reino animal. Já a ansiedade é mais ampla porque está ligada a coisas comezinhas. “É importante ter medo. A reação das pessoas a um evento estressor faz muito mais sentido no meio animal. Mas, quando isso é transportado para o meio da cultura, pode ficar patológico, desfuncional. Uma pessoa que foi assaltada, tem um trauma. Se ela não volta a levar seu dia a dia normalmente, continua vivendo essa ansiedade”.

E a ansiedade é um fator adaptativo, contou Ronald. “Não devemos entrar nessa coisa de que a ansiedade vai ser só uma coisa ruim A gente tem que sentir ansiedade, mas em um nível correto. Não se pode ficar parado, paralisado com as notícias de violência, por exemplo. Existem níveis de ansiedade e medo que devem ser tratados, mas várias pessoas que precisam e não recebem um tratamento. Ou nem percebem que têm um sintoma que precisa de atenção”. Ele conta que no laboratório, em experimentos animais, são mapeados diferentes comportamentos, como um rato que explora um ambiente, e outro que fica paralisado de medo e não se move.

A discussão também abordou os traumas de infância. Até algumas décadas atrás, as crianças eram excluídas e expostas a um regime muito severo de contenção. Em alguns países europeus ainda existe isso. “O que acontece na sua infância pode ter um reflexo na sua vida. Pessoas podem ficar traumatizadas com coisas graves ou que não traumatizariam mais ninguém, mas pra elas virou uma questão. Problema é aquilo que a pessoa acha que para ela aquilo é problema. Isso foi uma boa sacada de Sigmund Freud”, contou Sidarta.

O pesquisador acredita que Freud ainda vai ser muito homenageado pela neurociência, pois na sua interpretação, vários artigos científicos vêm confirmando na virada do século XXI intuições e especulações que Freud ofereceu no início do século XX. 

Sidarta também defende que o tipo de contexto social no qual se lida com um trauma deve ser analisado. “O entorno vai te ajudar a curar ou a piorar o trauma? A gente precisa ter muito mais empatia pelo sentimento do outro para poder ajudá-lo”. 

Em seguidam Ronald falou sobre os diferentes tipos de estresse. Um deles é o eustresse, em que o o organismo produz adrenalina, que ajuda a pessoa a reagir de forma positiva às situações de mudança e desafio. Ele usou como exemplo o caso do compositor Georg Friedrich Händel, que sob forte pressão, escreveu o oratório “Messiah”. 

“Se você tem pouco estresse você não cria nada. Conforme vai aumentando a quantidade de cortisol (diretamente envolvido na resposta ao estresse) vai melhorando a criatividade. Porém, se passar de certo ponto, acaba essa produtividade”.

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