Hip Hop e a arte de quebrar convenções

Com mediação de Zé Ricardo, curador do Palco Sunset do Rock In Rio, 1 rapper veterano e 3 da nova geração discutiram ideias sobre o hip hop e particularidades sobre seus métodos de trabalho. Respectivamente, Marcelo D2, Baco Exú do Blues, Delacruz e Xamã falaram para um numeroso público na Grande Sala do segundo dia do Rio2C, o maior festival de criatividade e inovação da América Latina.

O mediador começou falando sobre o prazer que era conversar com quem entende e que é essencial discutir coisas importantes para a música e para o mercado, já que hoje em dia o rap é muito mais do que só música.

Sobre o assunto do painel, a narrativa do hip hop era o que importava a princípio. D2 começou dizendo que escreve desde muito cedo, 13, 14 anos. Sua família já tinha tradição na escrita com o avô poeta e o pai que era entusiasta. Quando Marcelo descobriu o rap uma porta se abriu. A força que aquela música tinha - e tem! - dava a possibilidade de contar a história do músico e de quem estava a seu lado. Sobre rima, geralmente ela aparece de algo que ele vê na rua, ou o que alguém fala e ele capta. A coisa de contar história e de ser um narrador do dia a dia da cidade o fez ser um cidadão e se sentir como parte da cidade do Rio de Janeiro.

O baiano Baco (nome verdadeiro: Diogo Alvaro Ferreira Moncorvo), falou que tem diversas forma de enquadrar a escrita. Ele particularmente escreve no papel as coisas que pensa, que estão dentro dele e não consegue mais guardar. Aí depois ele pensa o que vai fazer. A clássica técnica das 16 barras, que consiste em uma teoria da formalidade aplicada na matemática do rap e na metrificação da estrutura da composição, já não é mais tão utilizada pelos artistas da nova geração e por muitos veteranos. 

O cantor e compositor Delacruz é adepto das melodias e das notas mais longas, ele traz musicalidade para o rap e primeiro define a melodia para depois transformar em letra. Ressaltou que estuda cada vez mais música, pensa na harmonia, toca violão e curte essa "onda". Por isso a 16 barras também nunca fez muito sentido para ele, ou seja, ele evita fazer algo convencional e repetitivo. 

Para Xamã (Jason Fernandes), natural da zona oeste carioca e especialista em improviso, quando você tenta aparecer espontâneo em uma foto, isso não acontece. Mas quando você é espontâneo naturalmente o efeito é diferente. No seu método, quando ele constrói tudo na hora se sente mais livre. Justifica que o suingue é algo importante, que quando entra nele consegue fazer alguma coisa que o faz pensar depois como aquilo surgiu. Analisa todas as possibilidade de flows e ideias e diz que foi influenciado pelo rapper Speed, já falecido, e como ele usava a língua portuguesa no rap. "Freestyle para mim é essencial", resume. 

O assunto mudou para as diferenças musicais no estilo entre as línguas portuguesa e estrangeira. D2 lembrou do seu flerte com o samba e outros estilos musicais. Para ele, foi um grande desafio decupar um ritmo que era coisa de seus pais, já que ele só ouvia o punk de bandas como Ratos de Porão e Dead Kennedys. "Quando eu mostrei a minha fusão de samba com o rap para o saudoso Bezerra da Silva, ele pirou e me incentivou a ir em frente. Hoje em dia o rap é a música que mais se espalha pelo mundo", diz Marcelo que recentemente lançou o disco/filme autobiográfico 'Amar É Para os Fortes' (https://youtu.be/ML_7bWCI-VA), inovando mais uma vez.

Zé Ricardo pergunta para Baco como ele monta a composição e como é a relação com seus produtores. No início, o artista achava os samplers das músicas que queria nos beats. Ele sempre teve este apelo de produção, de entender como as coisas iriam chegar em sua versão final. Sempre foi muito presente na criação em geral, mas a primeira vez que teve um maior contato com isso foi com "Bluesman", seu segundo álbum de estúdio lançado em novembro do ano passado, quando chegou a artistas que não conhecia ou que ainda não tinha trabalhado ou mesmo que achava não teriam a ver com ele. 

Delacruz vê uma importância fundamental de um produtor musical em seu trabalho e citou seu irmão de consideração como uma pessoa que o ajuda e o ensina muito. Para ilustrar isso, um trecho do clipe de "Sobre Nós", com a participação de músicos como Leo Gandelman e Alberto Continentino foi passado (https://youtu.be/bD6ifecX6rs). Xamã comentou que veio do slam (batalha de poesia) porque não tinha dinheiro para pagar o beat do produtor, por isso foi indo naturalmente por este caminho, ou seja, no início cantando sem uma base por trás. 

Os rumos da conversa chegaram no papel do hip hop como ferramenta de transformação social e de diversidade. Falaram sobre a importância das mulheres no movimento e quando Baco disse que tinha que ter uma mulher no painel a plateia veio abaixo. "A mulher tem que ter o papel que ela quiser ter", disse Delacruz. 

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