A Narrativa do Samba no Rio2C

Dois representantes do samba bateram um papo bem descontraído com o jornalista e escritor João Pimentel na Grande Sala nesta tarde de quarta-feira. Alcione e Monarco, uma mangueirense e o outro portelense, contaram, a princípio, como o samba entrou em suas vidas.

Marrom começou falando sobre a influência da cultura do Maranhão, principalmente do Bumba Meu Boi, em sua vida. Quando criança, ela ouvia a batucada, mas não ia para a quadra. Se encantou com as batidas peculiares dos blocos tradicionais. Quando veio morar no Rio de Janeiro, cantava de tudo na noite: bolero, samba, blues e gostava muito. Quando chegou a hora de gravar seu primeiro disco, Roberto Menescal, que na época era executivo de gravadora e foi apresentado a ela por Jair Rodrigues, disse que havia uma brecha na música popular para ela, e essa brecha era o samba. Mangueirense desde a época do Maranhão, ela já cantava musicas de Nei Lopes, mas somente quando veio ao Rio começou a frequentar a Mangueira e descobriu e se encantou pelo verdadeiro samba. 

Já Monarco nasceu em Cavalcante (RJ), em 1933, mas desde pequeno foi criado em Nova Iguaçu. A partir daí que o samba entrou em sua vida, durante a infância. Com 8 anos de idade, ele andava com um garoto que não tinha família e, ao contrário do que a sua mãe mandava, eles continuavam a andar juntos e brincar de pipa. Foi inspirado nesta história que Monarco escreveu o seu primeiro samba. Depois, morou em Osvaldo Cruz, perto da Portela, escola pela qual já tinha simpatia por causa das músicas de Noel Rosa. Lá, via os bambas tocando, descobriu que já tinha o dom e ficou na cabeça de que tinha que fazer um samba para a escola. Um sonho que mais tarde se realizou, fazendo parcerias com aqueles que admirava. 

Para Alcione, a descoberta de que era sambista se deu quando conheceu Candeia, Cartola e todo o pessoal que começou a dar música para ela. Em pouco tinha canções de gente boa do Brasil inteiro para gravar. Já Monarco citou Alcides, o seu primeiro parceiro, aquele que acreditou nele no início. Um belo dia nasceu um samba de sucesso e ele foi promovido e respeitado como um talento da nova geração. 

Com relação ao repertório, Alcione disse que sempre ouviu tudo o que mandavam para ela. Um caso curioso foi quando ela foi fazer uma participação no show da Fatima Guedes e na entrada do Teatro Rival recebeu um CD que ela ficou de ouvir no dia seguinte. O seu novo disco já estava fechado, mas quando ouviu no cd “É, você é um negão de tirar o chapéu / Não posso dar mole se não você creu...” decidiu que tinha que gravar de qualquer maneira. Por coincidência no dia seguinte a escritora Glória Perez pediu uma música a ela, que mostrou esta e que agradou de cara. A música foi o maior sucesso. “De vez em quando aquela música que chega por último é aquela que resolve tudo”. 

Era inevitável que João perguntasse como “Não Deixe o Samba Morrer” apareceu para a artista. Alcione ainda cantava na noite e uma outra cantora que cantava com ela declamou os versos da canção e disse que não havia gravado porque o empresário achou que não era uma musica comercial. Mostrou para Menescal, que topou gravar e não deu outra: a música ficou 22 semanas em primeiro lugar nas paradas, inclusive foi gravada em japonês, italiano e outras línguas. 

Cantar na noite deu uma bagagem à Marrom, que cantava muito com Emilio Santiago, Djavan e Áurea Martins. Relembrou quando foi ao Beco das Garrafas com o seu trompete para fazer um teste. Sua ousadia rendeu um emprego em que ganhava pouco mas como tinha mais duas outras boites para se apresentar, acabou ganhando um dinheirinho no final do mês. Até que Menescal e a gravadora deram o ultimato: ou fica na gravadora ou canta na noite. “Depois disso fui pra noite só para ouvir os outros cantarem, foi só alegria”, riu. 

Monarco falou sobre o sentimento de felicidade tanto por escola grande ou pequena. Ele sempre gostou de ajudar, até porque também foi ajudado. Fez um samba para a Unidos de Padre Miguel, em 1965, que gostaram e desfilaram com ele pela Avenida Rio Branco. Em 1967 fez um para a Unidos do Jacarezinho e levou inicialmente um puxão de orelha da Portela porque a escola foi campeã, apesar de ser de um escalão abaixo. “Eu não faço samba para competir com a minha escola, se não eu não amo a Portela”, disse ele, que cantou mais do que falou e citou Geraldo Pereira como o seu grande ídolo.

A próxima pergunta fez Alcione refletir sobre a Mangueira do Amanhã e Dona Neuma; e Monarco sobre o papel social da Portela através de Dona Andreza, que foi muito importante para desmistificar o conceito de que “samba era coisa de vagabundo”, e esse preconceito foi o que fez com que ele encarasse dificuldades e trabalhasse como feirante e também na ABI (Associação Brasileira de Imprensa). 

O gancho das mulheres que fazem um trabalho social para o samba puxou o assunto da força feminina no ritmo. Leci Brandão, Tia Neuma, Dona Ivone Lara e outras foram lembradas e se não fossem elas hoje não haveriam mulheres na bateria da Mangueira, lembra Marrom. “O mais incrível é que hoje existe até um grupo de shows da Mangueira só com mulheres ritmistas. A força feminina do samba hoje é real. E isso era inimaginável há um tempo atrás “.

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