O espetáculo do entretenimento

Um estudo da PriceWaterhouseCoopers trouxe a boa nova: o setor criativo na América Latina terá um crescimento de 5,4% nos próximos anos, acima da média mundial. Além disso, o segmento de mídia e entretenimento deverá crescer 4,4% até 2022. Nesse último ano a receita global do setor será de US$ 2,4 trilhões, contra o US$ 1,9 trilhão registrado em 2017. São números de deixar outras indústrias morrendo de inveja.

Impulsionado pelo fenômeno do streaming, o ramo do audiovisual talvez seja o mais robusto: entre 2014 e 2016, a exportação de produtos audiovisuais brasileiros aumentou quase 140%. Reed Hastings, CEO da Netflix, já declarou: "Fico impressionado quando penso no Brasil. Nós éramos muito fracos no primeiro ano e agora a empresa no país é um foguete". O Brasil é o terceiro maior mercado da plataforma, que a partir do ano que vem terá a Disney como concorrente.

Depois de voltar de Lisboa, onde presenciou a última conferência de inovação e tecnologia Web Summit, que ocorreu no início do mês, Rafael Lazarini se dizia ainda mais entusiasmado com a indústria cultural e criativa do Brasil. Nascido em Brasília e radicado no Rio, ele é o idealizador do Rio Creative Conference, ou Rio2C, evento voltado para os segmentos do audiovisual, da música e da inovação. Derivado do RioContentMarket, organizado desde 2010, ele ganhou o nome e o propósito atual neste ano, tendo como inspiração o badalado megafestival South by Southwest, em Austin, no Texas, e o Web Summit.

"O sucesso do evento em Lisboa comprova o potencial de crescimento do setor do entretenimento global e a relevância do Rio2C", afirma Lazarini em entrevista ao Valor, em São Paulo, para onde viaja quase semanalmente. Mais próxima da tecnologia, a conferência lusitana, fundada na Irlanda em 2010, atraiu desta vez 70 mil pessoas e injetou EUR 300 milhões na economia. Para mantê-la no país até 2028, o governo português se comprometeu a investir EUR110 milhões no Web Summit até a data.

A próxima edição do Rio2C está marcada para abril. Pela segunda vez, ocorrerá na Cidade das Artes, no bairro carioca da Barra da Tijuca - a sede anterior era o hotel Windsor Barra. A expectativa dos organizadores é atrair cerca de 25 mil pessoas, 7 mil a mais que neste ano, quando o impacto econômico na cidade foi estimado em aproximadamente R$ 200 milhões.

"Essa é uma conta conservadora, porque os visitantes que esse tipo de evento atrai não são turistas, mas pessoas interessadas em fazer negócios e criar laços profundos com o país", afirma Lazarini. "O impacto econômico continua depois." A programação é encerrada com um festival de música que é a soma de festivais regionais independentes.
Para quem não sabe do que se trata, é mais simples explicar o Rio2C a partir dos produtos culturais que ele costuma dar origem. A série futurista "3%", por exemplo, que já foi a de língua não inglesa mais assistida na Netflix. Estrelada pela atriz Bianca Comparato, a produção saiu do papel depois das conversas entre os produtores e a plataforma de streaming nos encontros promovidos pela conferência da Barra da Tijuca. 

Neste ano, 1,3 mil projetos audiovisuais foram apresentados a quase 320 "players" como a emissora inglesa BBC, a italiana RAI e a Al Jazeera, com sede no Qatar. O evento inovou em 2018 ao se voltar também para a música. Em audições que lembram as realizadas por programas como o "The Voice Brasil", músicos e cantores foram apresentados a uma comissão formada por jornalistas especializados e mandachuvas de rádios e gravadoras. Não houve premiação, pois o objetivo não é jogar os holofotes sobre uma única promessa.

Vencedor na categoria revelação do 29o Prêmio da Música Brasileira, concedido em agosto, o cantor pernambucano Almério Rodrigo foi um dos que tentaram a sorte no Rio2C. A novidade para o ano que vem é a participação de startups de ramos como inteligência artificial, robótica e realidade virtual. Numa espécie de "Shark Tank" sem câmeras de televisão, elas poderão apresentar seus projetos para possíveis investidores.

O vigor do mercado cultural não interessa a Rafael Lazarini só em razão do Rio2C. Desde 2016 ele exerce o cargo de head of business development na América Latina da Live Nation. Líder mundial do entretenimento ao vivo, a companhia abriu no fim do ano passado um escritório em São Paulo, chefiado pelo carioca Alexandre Faria, que até então atuava no Brasil por meio de parcerias com a Time For Fun. No rol de bandas representadas pelo gigante global constam nomes como U2,
Foo Fighters, Justin Timberlake e Maroon 5.

Proprietária ainda da Ticketmaster, que vende e distribui ingressos, a empresa gastou US$ 5,6 bilhões com a organização de cerca de 30 mil shows em 40 países. Michael Rapino, presidente da Live Nation, animou os acionistas em carta endereçada a eles no fim de 2017 com a apresentação de números: "Só nos Estados Unidos, o gasto com experiências cresceu a um ritmo de US$ 5 bilhões por anos na última década. Acreditamos que essa tendência vai continuar e aumentar a demanda global por shows". A receita de 2017 foi de US$ de 10,3 bilhões, US$ 2 bilhões a mais que no ano anterior.

Deve-se a Lazarini a criação da IMX, a empresa de entretenimento e esportes de Eike Batista. Ele propôs a companhia ao dono da EBX após uma temporada em Los Angeles, onde trabalhou na agência de talentos Rogers & Cowan e concluiu um mestrado em marketing e comunicação na Universidade do Sul da Califórnia. "O Brasil não tinha o conceito de indústria de entretenimento bem definido. Que outro país tem as mesmas condições de replicar a americana?", pergunta ele, que atuou ao lado de Eike de 2010 até a ruína do ex-homem mais rico do país, em 2014.

Criada em 2011, a IMX passou a se chamar IMG em 2015 com a saída do empresário do negócio e a aquisição de sua fatia pelo fundo soberano Mubadala, de Abu Dhabi. O fundador do Rio2C também trabalhou por dois para o Rock in Rio e se não está mais animado com o mercado de shows daqui é em virtude do baixo interesse dos brasileiros por rappers internacionais. "Ainda não conseguimos trazer nomes como Drake, que fazem enorme sucesso mundialmente", diz ele.

Até outra hora a principal estrela desse meio, a Time For Fun, ou T4F, como é mais conhecida, segue investindo suas fichas no festival Lollapalooza, em musicais como o "Fantasma da Ópera" e em nomes da música que não têm exclusividade com a Live Nation, a exemplo do roqueiro Roger Waters. Em atividade desde 1983, a empresa registrou um lucro líquido de R$ 45,3 milhões no ano passado. No ano anterior foram R$ 26 milhões, o que representa um crescimento de mais de 74%. "A crise dos últimos anos levou muitas empresas a diminuírem suas verbas de marketing. Com a volta do crescimento do país, o investimento em shows e grandes eventos deve voltar a subir", diz ao Valor o empresário Fernando Altério, sócio- fundador e diretor-presidente da Time For Fun.

Publicado no Jornal Valor, em 30/11/2018.

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