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O cérebro no centro da narrativa

Glória Perez, Fernando Coimbra e Bráulio Montovani contam como desenvolvem narrativas com personagens no limite entre a sanidade e a loucura.

A ficção adora personagens limítrofes. Pense em Hamlet, Dom Quixote, O lado bom da vida, Cisne Negro... A lista é interminável. Para entender as razões deste fascínio e como os autores criam seus personagens fronteiriços, alguns a beira da psicopatologia, o Rio2C convidou um time de roteiristas que costuma flertar com a loucura e a insanidade em suas criações: Glória Perez, Bráulio Montovani e Fernando Coimbra. 

O fascínio do incompreensível
“Tenho visto um aumento de séries e produções que abordam os distúrbios da mente humana e esse é um território muito rico para ser explorado do ponto de vista da ficção”, afirma Glória, que criou o psicopata Edu para Dupla Identidade e tem uma ideia bastante clara do que a atrai em tipos como o protagonista de sua série. “O psicopata é um personagem rico para a dramaturgia por sua capacidade de enganar e de se multiplicar”, afirma a roteirista. “O Edu era ao mesmo tempo um príncipe e um predador. As duas personalidades conviviam nele de forma compartimentada e é isso que nos desestabiliza e atrai nesses personagens. São criaturas que desafiam o expectador, mas também a nós, criadores”, ela define.

Coimbra não tem dúvida de que o cérebro, ou seja, de que a mente do protagonista está sempre no centro da narrativa. “E, no caso da direção, as escolhas estéticas precisam traduzir de modo sutil esta subjetividade”. Em O lobo atrás da porta, longa em que Leandra Leal interpreta a “Fera da Penha”, figura real em que o filme se baseia, “a câmera ficava sempre muito próxima aos personagens, com muitos planos sequência para termos a atuação em tempo real, e a fotografia era sempre muito sensorial, quase fetichista, navegando pela pele dos personagens e por detalhes do cenário que traduzissem de alguma forma a memória afetiva dos protagonistas.” 

A ficção faz sentido, a vida não
Mas por que gostamos tanto dessas histórias e personagens no limite, se elas nos desestabilizam tanto? Para o roteirista de Cidade de Deus, a resposta é igualmente desestabilizadora. “Gostamos de ver e ouvir histórias por que a vida não tem sentido algum, o que é difícil de suportar. Para compensar esse fato, as narrativas de ficção sempre buscam algum sentido, ou sugerem algum. O trabalho de escrever tem muito a ver com o que a neurociência está descobrindo sobre o nosso cérebro, que tende a organizar, hierarquizar, integrar e dar sentido a tudo. Daí o prazer e o vício que envolve a literatura, o cinema e toda forma de ficção. Eles dão sentido ao que muitas vezes é incompreensível. E, neste aspecto, realmente nos redimem.”

Criador de diversos tipos nos roteiros que constrói, Braulio Mantovani faz uma analogia com o próprio cinema (um conjunto de imagens em sequência que dão a ilusão de movimento) para explicar que o cérebro é condicionado a enxergar coisas diferentes das reais. Por isso, o diretor ressalta a importância de, mesmo quando a proposta for reproduzir alguma história real, o autor buscar verossimilhança apenas em suas próprias convicções. “Ouvimos e lemos notícias tão absurdas a cada dia que, enetr nós, roteiristas, é comum dizer que, se fizéssemos um roteiro sobre aquilo, ninguém queria acreditar. As histórias reais só funcionam bem na ficção se inventarmos elementos em cima delas. As pessoas precisam demais. Costumo sempre repetir uma frase que ouvi de Guel Arraes. “A vida é uma excelente roteirista. Pena que ela só entrega o primeiro tratamento do texto”, recordou Mantovani.

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